O acesso adequado da população a cuidados de saúde é um objetivo central dos sistemas de saúde e um pilar fundamental para a equidade. Este relatório, baseado numa amostra representativa da população com 15 ou mais anos residente em Portugal continental, analisa a evolução do acesso a cuidados de saúde no país entre 2013 e 2025. Focado nas decisões tomadas pelos cidadãos desde o momento em que se sentem doentes, o relatório identifica desigualdades significativas associadas a fatores socioeconómicos, demográficos e geográficos, que comprometem a equidade no sistema de saúde.
À semelhança do registado em anos anteriores, verifica-se que as desigualdades socioeconómicas em saúde e no acesso a cuidados de saúde se manifestam, desde logo, na ocorrência de episódios de doença. Com efeito, indivíduos do escalão económico mais desfavorecido registam uma probabilidade de 67% de reportar pelo menos um episódio de doença, comparativamente com apenas 39% entre indivíduos dos escalões mais favorecidos. Em 2025, as barreiras financeiras a cuidados de saúde permanecem elevadas, situando-se acima dos níveis observados no período pré-pandémico (2013–2019) e durante a fase mais intensa da pandemia (2020–2021).
Embora entre 2022 e 2025 se tenha registado uma quebra substancial na percentagem de inquiridos que recorre a cuidados de saúde unicamente no setor público – Serviços Nacional de Saúde (SNS) – 83,52% dos inquiridos contactaram apenas o SNS aquando do último episódio de doença. No setor público, os serviços mais frequentemente procurados são os cuidados de saúde primários. Ainda assim, a cobertura da população por médico de família no SNS permanece baixa.
Um ponto que merece destaque, é a redução na procura por urgências de hospitais públicos, que parece refletir a introdução do programa “Ligue antes, salve vidas”, uma iniciativa que procura promover a triagem prévia através da linha SNS 24 antes do recurso aos serviços de urgência hospitalar. A maioria (61,9%) das pessoas que já ligaram para a linha SNS 24 ficaram satisfeitas ou muito satisfeitas com as recomendações prestadas. A evidência sugere ainda que possibilidade de os indivíduos emitirem uma autodeclaração de doença também está a contribuir para uma utilização mais eficiente dos recursos do SNS.
Por último, uma vez que tratar e cuidar não se esgotam na resposta clínica à doença, mas implicam reconhecer a singularidade de cada pessoa, a sua experiência subjetiva e o contexto em que vive, importa frisar que os níveis de satisfação da população com a humanização dos cuidados prestados no sistema de saúde – SNS, setor privado com fins lucrativos e setor privado sem fins lucrativos – permanecem abaixo dos registados nos períodos pandémico e pré-pandémico.
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Autores do estudo: Pedro Pita Barros e Carolina Borges da Cunha Santos.
Este relatório faz parte da Iniciativa para a Equidade Social, uma parceria entre a Fundação "la Caixa", o Banco BPI e a Nova SBE.