RESUMO:
Governos em todo o mundo estão a regular cada vez mais o acesso dos jovens às redes sociais, em resposta à crescente evidência dos seus efeitos negativos.
Uma questão central de política pública é perceber se a utilização intensiva reflete escolhas individuais ou suscetibilidades pré-existentes. Este estudo analisa se as predisposições genéticas para a escolaridade influenciam a utilização de redes sociais na adolescência, utilizando dados do Millennium Cohort Study.
A análise explora a transmissão aleatória de material genético de pais para filhos para isolar efeitos causais.
Para garantir que o índice poligénico (PGI) para a educação não resulta da própria utilização de redes sociais, este é construído com base em dados do UK Biobank, que inclui indivíduos que completaram a escolaridade antes da era das redes sociais.
É aplicado um modelo de variáveis instrumentais Obviously Related Instrumental Variables (ORIV), com base em duas amostras independentes do UK Biobank, para corrigir erros de medição dos índices poligénicos.
Os resultados mostram que uma menor predisposição genética para a escolaridade está associada a um maior tempo de utilização de redes sociais aos 14 e 17 anos, com efeitos que aumentam ao longo do tempo. Uma diminuição de um desvio padrão no PGI para educação aos 17 anos traduz-se num aumento de cerca de 30 minutos por dia na utilização.
Estes resultados demonstram um efeito causal genético na utilização de redes sociais, sugerindo que o envolvimento nas plataformas pode explorar suscetibilidades biológicas e que alguns adolescentes poderão ter maior dificuldade em autorregular o seu comportamento.
Breve Biografia:
Rita Dias Pereira é economista nas áreas da saúde e da educação, com foco na interseção entre genética e desigualdades socioeconómicas. Atualmente, é investigadora de pós-doutoramento na Nova School of Business and Economics.
É doutorada em Economia pela Erasmus University Rotterdam e pelo Tinbergen Institute. O seu trabalho foi publicado em revistas como Nature Human Behaviour, Nature Communications e o Journal of Human Resources.