No arranque de 2026, a Península Ibérica sofreu os impactos de um rio atmosférico que trouxe chuva, ventos fortes e tempestades destrutivas na região Centro do país. Estas tempestades, embora esperadas no inverno, são alimentadas por um sistema climático mais instável onde a circulação em altitude é alterada e, por consequência, também a localização destes sistemas de baixa pressão, as suas características e os seus impactos. Esta instabilidade do sistema climático não é nova. A normalização da ocorrência de eventos climáticos e meteorológicos extremos é apenas a consequência imediata de um reenquadramento das nossas expectativas do que é um clima normal.
Desde 1896, graças ao trabalho de Svante Arrhenius, sabemos que o aumento da acumulação de carbono na atmosfera leva a um aumento da temperatura da Terra. Em 1965, o relatório “Restaurar a Qualidade do Nosso Ambiente”, criado pelo comité científico do Presidente Norte-Americano Lyndon B. Johnson, era claro: “O aumento da concentração de CO2 na atmosfera irá reter calor causando mudanças no nosso clima.” Infelizmente, apesar da evidência científica e de todo o esforço da comunidade científica e de alguma parte da sociedade civil, a verdade é que a mudança peca não só por tardia, mas também por insuficiente.
No contexto do meu programa de doutoramento em Economia na NovaSBE, na área de Economia das Alterações Climáticas, a minha investigação está centrada no mapeamento dos impactos económicos das tempestades no contexto de alterações climáticas. Parte dessa investigação centra-se na comparação de 3 cenários diferentes: “emissões elevadas”, “mitigação intermédia” e “mitigação forte”. O aumento estimado da temperatura média no planeta em cada um destes cenários, em 2100, será de 4,8°C, 2,9°C e 2°C, respetivamente, face ao período pré-industrial. Os resultados da minha investigação suportam um conjunto de consequências em linha com as projeções do IPCC (2021):
- Redução da frequência geral de eventos de precipitação em Portugal,
- Aumento da frequência de tempestades mais intensas em Portugal,
- Aumento em geral dos danos acumulados por tempestades em todo o continente europeu, particularmente nas zonas mais vulneráveis,
- Desalinhamento dos incentivos às políticas de mitigação e adaptação entre países no espaço europeu.
Com base nos dados de pressão atmosférica para Portugal em janeiro de 2026 desenhei um conjunto de cenários em que avalio os impactos causados pelas tempestades durante o recente mês de janeiro nos 60 municípios onde foi declarado o estado de calamidade. Este exercício tem por base as seguintes premissas:
- O ponto de rutura da infraestrutura. Aquele em que os sistemas entram em falha catastrófica e os danos se tornam estruturais.
- A capacidade de resiliência da infraestrutura, tanto em falha catastrófica como em condições normais. Quanto mais resiliente a infraestrutura for, mais stress suporta para além dos pontos de rutura.
- O efeito multiplicativo dos impactos. O momento em que os solos estão saturados e os caudais dos rios já estão elevados, elevando os danos causados pelas tempestades.
Numa modelização simples tendo em conta estas três premissas, assumindo um ponto de rutura da infraestrutura no caso de tempestades com ventos acima de 150km/h, e um limite máximo para o efeito multiplicativo dos danos das tempestades, verificamos que a resiliência da infraestrutura tem um papel crítico na redução dos danos causados. A diferença nos danos potenciais é visível na comparação entre os 3 cenários descritos e apresentados nas Figuras 1, 2, e 3, abaixo.

Da esquerda para a direita, estas figuras referem-se ao cenário atual (pouca resiliência), cenário intermédio (alguma resiliência) e cenário ideal (muita resiliência). Os danos estimados para cada cenário são de 5.290,34 milhões de euros, 2.558,73 milhões de euros e 1.487,65 milhões de euros, aproximadamente. Um investimento na resiliência das infraestruturas destas regiões teria um impacto substancial na redução dos danos. O potencial de redução seria quase 4 mil milhões de euros, aproximadamente 2% do PIB português em 2025, o que não é um valor negligenciável.
Num país onde, segundo o Eurobarómetro de Outono de 2025, os cidadãos portugueses são os mais preocupados da Europa com as catástrofes naturais (91%), há um claro incentivo ao desenho de políticas de adaptação aos fenómenos climáticos extremos. Embora se reconheça que a previsão de fenómenos meteorológicos extremos é extremamente difícil, não se pode compreender que em 2026 as autoridades competentes sejam surpreendidas pela potencial ocorrência dos piores cenários. A definição das políticas públicas, no contexto das alterações climáticas, tem de ser informada pela evidência científica, assim como o planeamento urbano tem de ter em conta as vulnerabilidades que enfrentamos, particularmente quando estas já são conhecidas.
A reavaliação e permanente atualização dos planos de contingência e de adaptação e mitigação às alterações climáticas quer ao nível nacional quer ao nível local são críticas. Exercícios como o que eu fiz são fundamentais, pois permitem estimar os danos que este tipo de fenómenos irá provocar ao nível local. Isto permite o desenho de uma política de investimento em adaptação que leve a uma redução da exposição e da perda de vidas humanas e, consequentemente, do bem-estar das populações mais vulneráveis. Em face da inviabilidade de atingir os objetivos de Paris, é fundamental ajustar as nossas políticas. A vida no pós-1,5°C depende das escolhas coletivas tomadas agora.
João Seixo é investigador no Environmental Economics KC e doutorando em Economia na Nova SBE. A sua investigação centra-se na medição dos impactos económicos das alterações nos padrões de tempestades no contexto das alterações climáticas.